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Publicado em 09 de abril de 2026 por Mecânica de Comunicação

Como os petrechos de pesca abandonados impactam os ecossistemas aquáticos

A pesca, atividade ancestral provedora de alimento e renda, é realizada por meio de equipamentos chamados petrechos de pesca (PP). Até meados do século XX, esses petrechos eram fabricados com materiais biodegradáveis, como linho e algodão. No entanto, a partir da Segunda Guerra Mundial, passaram a ser produzidos com materiais sintéticos, o que aumentou sua durabilidade e eficiência.

No ambiente marinho, os petrechos de pesca abandonados, perdidos ou descartados (Abandoned, Lost or otherwise Discarded Fishing Gear – ALDFG) mais encontrados são redes de pesca, cabos, boias, anzóis, armadilhas, linhas, entre outros. O abandono, a perda ou o descarte inadequado desses materiais pode ocorrer por fatores operacionais e ambientais (correntes, marés, ondas e ventos), bem como pela falta de pontos de descarte adequado, além de situações de vandalismo e roubo.

Redes, currais, linhas de pesca e anzóis podem causar, por exemplo, o aprisionamento de organismos. O emaranhamento representa uma grande ameaça, especialmente para a fauna marinha, pois os animais podem se afogar, sofrer asfixia ou estrangulamento, apresentar dificuldade de locomoção e alimentação, além de sofrer lesões e ferimentos.

Outra consequência é a presença de microplásticos no trato intestinal de organismos encontrados emaranhados em redes. Os ALDFG estão sujeitos à abrasão física e à exposição à luz solar, o que leva à sua degradação em partículas microplásticas. Essas partículas representam um risco à biodiversidade, podendo causar efeitos tóxicos.

Esses detritos também podem atuar como vetores de substâncias químicas no ambiente marinho, além de adsorver compostos presentes na água circundante. Apesar dos impactos negativos, os ALDFG podem, em alguns casos, servir como substrato para a formação de habitats e até de ecossistemas. De forma geral, detritos plásticos oferecem suporte para organismos de diferentes filos, como Arthropoda, Mollusca, Bryozoa, Chordata e Cnidaria, por meio de processos de bioincrustação e colonização.

Em ambientes praiais, os petrechos de pesca já foram classificados como uma categoria de resíduos sólidos em países como Colômbia, Indonésia e Brasil. Também são reconhecidos como resíduos em corpos de água doce ao redor do mundo.

A dissertação de mestrado Petrechos de pesca como resíduo praial em uma área de proteção ambiental na costa paraense, defendida por Elaine Simone da Cruz Silva, no Programa de Pós-Graduação em Oceanografia do Instituto de Geociências da Universidade Federal do Pará, sob orientação da professora Sury de Moura Monteiro e coorientação da professora Sarita Nunes Loureiro, aponta que os ALDFG com maior potencial de causar danos à fauna e ao ambiente na Ilha do Algodoal — uma Área de Proteção Ambiental (APA) de grande importância econômica e ecológica, especialmente por ser área de desova de tartarugas marinhas — são as redes de pesca. Isso se deve à sua alta durabilidade e à facilidade de aprisionamento em vegetação e afloramentos rochosos, o que aumenta o risco de emaranhamento da fauna.

Além das redes, as cordas também apresentam elevado potencial de impacto, uma vez que possuem maior facilidade de fragmentação e foram o principal tipo de ALDFG colonizado por organismos. Destaca-se ainda que esses materiais podem atuar como vetores de substâncias químicas utilizadas em sua fabricação e/ou adquiridas no ambiente. Nesse sentido, há necessidade de maior compreensão sobre os impactos da colonização dos ALDFG sobre os organismos, reforçando a importância de estudos futuros.

Como mencionado, a pesca é uma fonte reconhecida de ALDFG, e esse reconhecimento é fundamental, pois permite a elaboração de estratégias para a redução do problema. Tais ações podem ser implementadas junto a pescadores, colônias de pesca e à comunidade em geral, considerando que essa atividade é de grande relevância para a economia local.